Com a sua caneta de tinta permanente e o seu caderno simples, pautado, a baloiçar-lhe das mãos intemporais, Deus, escritor antiquado, pensa-me o caminho. E, tendo-o pensado, apressa-se a escrevê-lo, traçando para mim um futuro que não pensei e desenhando na minha vida um rumo brilhantemente lógico que eu nunca poderia ter cogitado, pois sou mortal e finita e imperfeita.
E fico agora, perplexa, a observar a forma como as linhas simples que ele traçou no papel com a sua letra infinita se concatenam e assimilam ao devir dos meus dias, que eu jamais poderia ter calculado, por os ter vivido um a um, e não os ter tomado como um todo complexo e composto que me trouxe até onde hoje me encontro.
Com a sua escrita imperiosa, Deus, autor obscuro e desconhecido, ordenou que os meus passos se dirigissem novamente para ti e percebo agora os motivos que O levaram, naquela tarde cinzenta e fria, a contrariar a minha vontade e a mandar-me rumar a Sul. E é como se visse a Sua mão de vento e neblina a apontar-me o caminho que deveria conduzir-me ao teu abraço quente e aconchegante.
Com o meu olhar confuso percebo agora não ter antes intuído a vontade do Criador apenas por não ter tido acesso a todo o livro que ele para mim escreveu, mas apenas a capítulos esparsos e folhas soltas da história que ele pretende contar.
História em que tu e eu somos protagonistas à deriva, sedentos um do outro, esquecidos do que vivemos e ansiosos de nos consumir num futuro que queremos apenas feliz.E haverá ambição maior do que esta?
Com a sua caneta infalível, Deus, escritor avesso a novas tecnologias e teclados de computador, traçou-nos, implacável, o caminho que, juntos, devemos percorrer.E eu agradeço-lhe, pois não poderia ter encontrado melhor companheiro de jornada. Mas fico a cismar, confusa, nos motivos que o terão levado a conduzir-me, de novo, até ti. Logo até ti. Que és bom e belo, perfeito na tua compleição física e na bondade e honestidade que sempre ostentas. Mas que te ris sempre que te falo no livro de que somos personagens e que me repreendes, com a ternura costumeira, sempre que afirmo sentir a presença constante na minha vida do escritor que nos traçou a rota.
«Estamos sós» - afirmas. «Entregues às nossas próprias condutas voluntárias.»
E eu pergunto-te: «Então, porque és bom?» «Porque não sei ser de outra maneira» - respondes. E eu sinto novamente a mão do Criador pousada no meu ombro e o seu sorriso cúmplice a procurar-me o olhar.
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
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