Domingo, 1 de Janeiro de 2012

Noite de amor

Apaga as luzes, meu amor, fecha as estrelas, manda a Lua retirar-se por agora.
O momento é nosso, que ninguém o venha ofuscar, que ninguém ouse roubar-lhe a escuridão e o tremor que lhe pertencem.

Como se atrevem, esses ténues brilhos da natureza, a descobrir-nos, frágeis, na nossa nudez, quando apenas pretendemos ficar sós? Não o permitas. Ordena-lhes que vão e regressem, tão somente, na hora em que nos separarmos de corpo, porque de espírito é já impossível que nos consigam apartar.

Afasta a força das marés com o teu gesto imperioso e fala-me da glória que vive já em nós. Recita-me poemas de Musset, amor, fala-me dos acordes de Schopin, que eu hei-de dar-te conta da prosa de Eça, do realismo contemporâneo, da escrita crítica e observadora.

Diz-me que a minha beleza te é indiferente, que não vês o meu olhar quando me miras, porque a literatura, que em mim vive, te inebria e te distrai de tudo o resto, a ponto de já não saberes se sou ou não bela ou desejável, porque vives, a cada momento, dentro de mim.

Afasta os fantasmas nocturmos, amor, acende a lareira. Sente-a crepitar dentro de nós, com as suas chamas alaranjadas a invadir-nos cada órgão corpóreo e perecível. E depois, chega-te à janela e expulsa cada uma das estrelas que pretendem violar a nossa privacidade.

Diz-lhes que é chegada a hora de os poetas serem carne e sangue e vida e mundo corpóreo. Assegura-te que elas foram, intrometidas e malfazejas, inspiradoras da nossa arte, e depois, deita-te a meu lado e entra dentro de mim outra vez.

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