Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Imolação

Hoje ergui-te um templo junto ao Mar, amor, onde te posso adorar e venerar sem que alguém se atreva a incomodar-me, a perturbar-me na minha imensa e infindável adoração por ti.

Levantei-o com as minhas mãos macias de Deusa e em cada coluna e altar coloquei flores e incenso para que melhor percebas o quanto de fanatismo existe no meu amor, feito religião para, de forma mais perfeita, me entregar a ti. E com um tosco cinzel esculpo a tua imagem amada na pedra para que ela permaneça perene, na igreja que te dediquei, da mesma forma que persistes no meu coração.

Aí me prostro, diariamente, oferecendo-me a ti, de corpo e alma e entranhas e coração e sangue e substância e vísceras. Aí me sacrifico e imolo, no altar da tua graça, apunhalando o próprio ventre para que me recebas, sem vida, no teu seio divino. Aí me purifico através do fogo de modo a ser digna de me unir a ti, na tua carnalidade de Deus Supremo.

Rezo-te orações baixinho, amor, como quem suplica pela piedade de um olhar teu e a suprema glória do teu amor. Acendo velas e faço-te promessas na expectativa do teu desejo. E arrasto-me até ao teu altar, prostrada, de joelhos, solicitando que me concedas o dom sublime da tua graça.

Mas tu recuas, apavorado, amor. E não cessas de gritar que és humano e não divino e de repudiar o meu fanatismo por ti, alegando que não és merecedor de tão eloquentes orações e de tão extremada veneração...

Mas eu perdoo-te, amor, porque não sabes. Porque desconheces e ignoras e és alheio aos desígnios desse outro Deus que um dia, sob a forma de Serra e de Mar me prometeu com voz de eternidade o teu amor por mim.

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