Amor não me procures novamente, não me sigas pela estrada que percorro, aflitivamente, a tentar apanhar-me, enquanto corro para me escapar ao teu enlace. Bem sei que és tu que me persegues, pois escuto já os teus passos, subtis e leves, fugazes e enganadores, no meu encalce. E eu, aterrorizada e tremente, fujo.
E lanço-me em louca correria pela estrada de terra batida em que me encontro, que ainda nem asfaltada foi, de tão primário ser o caminho da minha vida, a que ela pertence, e tão pouco percorrido e tão só.
Peço-te que não me persigas, mas insistes. E, cruel, atalhas-me o caminho, surjes-me pela frente quando te julgava atrás de mim, fazes-me tropeçar e cair nas poças de lama que se acumulam, escorregadias, nas bermas. Não sabes que é Inverno? Em breve a chuva há-de voltar.
Não me apontes a tua seta, Amor, não a quero receber novamente em mim. Deixa-me em paz, perdida no mar das minhas angústias e envolta nas ondas do meu pensamento.
"Impossível" - respondes tu com a tua leve e fresca voz de catraio, sorrindo, sem compaixão, ao meu receio e repulsa pela mão pequena e macia que me estendes - "Vem. Chegou o momento".
Mas eu, abanando a cabeça, uma e outra vez, não me resigno. E sento-me teimosamente no chão, fincando os pés entre as plantas selvagens que aí moram. E Amor, finalmente, retira-se, com o seu olhar azul de Cupido a rir da minha desgraça. Mas antes de se ir, ainda tem tempo e disposição para murmurar, uma última vez:
«Eu vou. Mas bem sabes que hei-de voltar.»
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
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