Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

O Primeiro Ministro, os Professores e a exteriorização da verdade

Não é fácil exercer o poder e, em simultâneo, manter presente a realidade quotidiana de um simples cidadão. Por muito que se negue ou que se omita esta realidade, não o é. Desde logo, porque os assuntos que se tratam, as matérias acerca das quais se conversa, os motivos de preocupação, passam a ser completamente distintos. Acresce que se está sujeito a uma permanente adulação e ao elogio e ao consenso fácil, que, sendo frequentemente repetidos, podem gerar uma convicção de indisputabilidade que nunca, em qualquer circunstância, poderá corresponder à verdade. (pelo menos de forma absoluta)

Há, até, quem se rodeie de barreiras (voluntariamente) e apenas tome conhecimento dos factos através de interpostas pessoas. Nada de mais errado. Tal actuação, para além de alterar de forma significativa a percepção da realidade (porque aquilo que é relevante para o líder, pode não ser para quem o aconselha) fomenta a existência de potências paralelas que em nada contribuem para a centralização (que, neste caso, se deseja) do poder em quem, efectivamente, o deve exercer.

Faço eu esta pequena introdução a respeito dos vários comentários que se vêm efectuando acerca de declarações do Primeiro Ministro que teriam incentivado a classe docente a emigrar. Em primeiro lugar, esclareço, desde já, que não me parece que a intenção tenha sido essa. A afirmação, proferida no contexto de uma entrevista a um jornal, teria vindo na sequência da constatação de que existem, no mercado de trabalho português, mais professores do que aqueles que são, actualmente, necessários, os quais deveriam, segundo o Governante, procurar alternativas profissionais, ou dentro ou fora do País. O que é natural e verdadeiro. E poderia ser dito por qualquer cidadão. Mas não pelo Primeiro Ministro.

Voltando ao início deste texto, devo dizer que tenho lido em diversos órgãos de comunicação social e que me tem sido referido por quem conhece o Primeiro Ministro que este tem por hábito ouvir toda a gente, de forma atenta e paciente. É um bom indício. Revela humildade e inteligência. Nenhum de nós é infalível. Ninguém é detentor de todo o conhecimento, seja qual for o cargo que se encontra a exercer. E escutar, de forma descomplexada, outrem, retirando, depois, as ilações que se impuserem, ou de concordância ou de discordância, é um sinal, não só de inteligência, mas também de auto-confiança.

Tendo, portanto, boas características, que decerto o ajudarão a exercer o seu munus, o Primeiro Ministro tem-se revelado, igualmente, bastante sincero.O que também é uma boa característica, desde que exercida correctamente. É que existem verdades que, por muito evidentes que se afigurem, não podem ser ditas por quem tem determinado grau de responsabilidade. É que cabe ao Chefe do Governo criar condições para que as pessoas fiquem no seu País. E não tenham de sair.

Há missões quase impossíveis? Há. E algumas não dependem de quem as exerce, por muito boa vontade que se tenha. Porque há condicionamentos, internos e externos, a ter em conta. Mas é algo que não pode ser exteriorizado sem grandes cautelas. Sob pena de surgirem mal entendidos.

Injustamente prejudiciais a quem, expressamente, os manifesta.

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